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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Noite

Com 1 Comentario

Ela parecia não suportar a escuridão.
Desse modo, assim que ela chegou, logo, percebi suas vestes e sua face carente.
Ela estava com um vestido escuro cheio de estrelas.
Sedutora, ela atraiu minha amada antes do sol se pôr.
Que lástima!
Aquela noite nunca mais voltou com o que levou.
A única coisa que ela deixou - foi um pedaço de seu vestido estrelado que eu vivo olhando e (re) lembrando o meu  amor. 

Adriano Alves

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Um comentário :

  1. Vez por outra, ouvimos alguém dizer a seguinte frase: “esse dia parece noite”. Para quem assim fala, “noite” assume um caráter extremamente negativo, desanimador, sem luz, desalentador, em outras falas; a “noite”, em tais critérios, é a pior coisa que pode acontecer.
    Todavia, há certas “noites”, o poema diz isso, que são melhores do que o dia, ou seja, nem a beleza dos dias mais lindas, vence certas “noites”. Ocorre assim, porque existem retalhos de noites que memoráveis. Algumas noites criam noites profundas em nós. Positiva e negativamente, evidentemente.
    Interessante que o poema diz que um pronome chegou, “ela”. Quem será “ela” que chega, mesmo por um momento, e refaz o sentido da noite? Quem sabe seja aquela que é alvo de amor de alguém? Talvez seja a esperança tardia, que nos deixa estrelas para que não a esqueçamos? Quiçá “ela” seja a palavra amiga de que sabe ser amigo na noite retalhado em estrelas fragmentadas?
    Indagações que não roubam a essência do poema, uma vez que nele “ela” é a noite vilã que rouba o sono e a amada de alguém.
    Nesse, sentido “ela” é a morte escura e sorrateira, que nos deixa somente lembranças (pedaço de vestido) daqueles (as) que amamos. Veja tal expressão:
    A única coisa que ela deixou - foi um pedaço de seu vestido estrelado que eu vivo olhando e (re) lembrando o meu amor.
    “ela” pode ser a morte, pois somente a morte, torna irrevogável a partida de quem amamos. O poema expressa tal assertiva quando diz: Aquela noite nunca mais voltou com o que levou, ou seja, não há volta, é irrevogável. Só a morte torna a ida nunca vinda.
    Sim, “ela” pode ser, o poema o diz, somente um tecido em nossas mãos, de quem que foi roubada ou se deixou roubar, para além do espaço profundo.
    O que temos de quem se foi é somente isso, pedaços (lembranças), aliás, até quem nos “pertence”, pertence-nos em pedaços, nunca temos ninguém completamente. Haja vista que, o que temos pode ser seduzido e levado de nós, veja o que diz o poema:
    Ela estava com um vestido escuro cheio de estrelas.
    Sedutora, ela atraiu minha amada antes do sol se pôr.
    A amada foi seduzida e partiu. E a noite longa se fez.


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