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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Aquela vida tão...

Com 2 Comentarios


Tão sem graça, 
Sem sentido.
Tão vazia de colo,
Vazia de canção de ninar.
Aquela vida tão sem mãe,
Tão sem vida!

Adriano Alves

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2 comentários :

  1. A sensação de orfandade é algo muito perturbador. O estado de órfão configura um sentimento de desamparo, abandono e desabrigo. Ser órfão é não ter uma casa para voltar.
    Quando estamos nesta condição, percebemos que, na verdade, a criança interna que nos mora, nunca foi assassinada pelo homem maduro que nos tornamos, ou seja, ainda desejamos o colo materno. Queremos o afago das mãos calejadas pela vida, mas que estão cheias de ternura. Ansiamos sentir o cheiro do cabelo que o vento bagunçava. Ser órfão é ter de tudo, menos o que se quer.
    No poema, a preposição “sem” e advérbio “tão”, revelam a intensidade da falta que o órfão sente. A palavra “sem” indica a ausência, a falta, a condição duro que se aboletou, a privação e a exclusão. Todo filho precisa de mãe para ser filho. Filho sem mãe (ou pai) é órfão.
    A palavra “tão”, refere-se ao teor intenso da angustia. É por isso que o poema grita que a vida é tão sem graça, tão sem razão, tão sem colo, tão sem música que faça dormir, tão sem mãe, tão sem vida.
    É possível alargar as fronteiras e dizer que a vida do órfão é tão cheia de nada que tudo a abarrota de frustração. Mas, tudo é tanta coisa? Para órfão, tudo, sem a mãe, é nada. O riso até escorrega da boca, mas o coração esconde a gargalhada. Ele é um perene enlutado.
    Como a vida pode ser tão sem vida?
    Vida neste sentido, não é a mera existência biológica. É, na verdade, os momentos que eram a expressão exata da vida que se vivia tão corriqueiramente. Aqui reside um problema: acredita-se que a vida tenha que ser estrondosa, mas ela é tímida e se apresenta em pratos de sopa, em gestos carinhosos, em broncas amáveis, em mesa posta, em sala receptiva etc. a vida se esconde atrás da existência biológica, ela deve ser achada. No poema, a vida estava no colo materno, na canção de ninar e na presença da mãe.
    Sem isso, a vida é somente “TÃO” e “SEM”. Tão sem mãe, tão sem filhos, tão sem amigos, tão sem verdade, tão sem amor, tão sem tudo.
    Sim, a vida pode ser vazia de vida, mas nunca vazia de ausências.

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  2. O órfão quer sempre a mesma coisa: a mãe. Ele quer ser criança de colo. É por isso que Adélia Prado escreveu:
    “Meu Deus,
    me dá cinco anos.
    Me dá um pé de fedegoso com formiga preta,
    me dá um Natal e sua véspera,
    o ressonar das pessoas no quartinho.
    Me dá a negrinha Fia pra eu brincar,
    me dá uma noite pra eu dormir com minha mãe.
    Me dá minha mãe, alegria sã e medo remediável,
    me dá a mão, me cura de ser grande,
    ó meu Deus, meu pai,
    meu pai.”

    O verbo “dar”, expressa o desejo de possuir o que já não se tem. O olhar dos órfãos conta as pedras do caminho. Cecília Meireles grita um poema que relata esta verdade:

    “A menina de preto ficou morando atrás do tempo,
    sentada no banco, debaixo da árvore,
    recebendo todo o céu nos grandes olhos admirados.
    Alguém passou de manso, com grandes nuvens no vestido,
    e parou diante dela, e ela, sem que ninguém falasse,
    murmurou: "A MAMÃE MORREU".
    Já ninguém passa mais, e ela não fala mais, também.
    O olhar caiu dos seus olhos, e está no chão, com as outras pedras,
    escutando na terra aquele dia que não dorme
    com as três palavras que ficaram por ali.”
    Sim, aquela vida de filho agora é vida de orfandade. O pior de tudo é que ser órfão é um caminho solitário. Ninguém sabe o que deveras um órfão sente. Talvez ele sinta tudo TÃO SEM sentido que nada é TÃO atraente para que o deixe SEM a dor de ser órfão. Aliás, ser órfão é coisa para toda a vida.

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