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domingo, 20 de dezembro de 2015

Pingo a pingo

Com 1 Comentario
Naquele dia, a chuva cantava desafinada na janela que respondia fora do tom. Desarmonia é uma música sem ordem que causa um desprazer de ouvir. Naquele dia a chuva não cantou bem. Hoje ela chega afinada, toca de leve na mesma janela que responde com tons melódicos. A harmonia faz música que tudo toca com doce prazer. Pingo a pingo a chuva canta o meu coração encantado pela música que ouve dela. A melodia é saudosa e constante. Tomar banho de chuva é ser uma música de gotas rápidas? Cada gota parecem lágrimas choradas do céu. De sabor doce estas filhas da alma são pesadas e tristonhas. Não se enganem, o doce que o céu chora é para esconder o sal que os meus olhos não cessam. 
Chove, molha, morro, música, madrugada, melodia, melancolia, mais um dia, mais uma chuva e haja lágrimas nos olhos desse céu que chora chuvas de lágrimas sem sal. Esta chuva parece a vida, pois ela pingo a pingo cai por terra até ser pó que a chuva molhará. 
Eu sou chuva que pingo, pingo, pingo, pingo... Ora desafinado e sem harmonia. Em outros momentos sou filho da harmonia e de tons agradáveis. Mas, onde pareço mais com a chuva é no pingo a pingo. Sim, neste pingar eu sou chuva, até cair numa janela qualquer. Que o vento me leva à janela dela na minha queda derradeira.

João Batista.

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Um comentário :

  1. Que metáfora linda ver-se como "pingo". Digo isso, pois percebo nas relações cotidianas pessoas agindo como iceberg. Elas são sólidas - e quem bate de frente com elas, certamente, sairá no prejuízo. Nem mesmo um sussurro apaixonado, um poema, um abraço, etc., consegue dissipar tamanha "geleira". Por que o poeta acima se vê como pingo? Por que ele ouve a chuva cantar desafinada? Por que ele se derr-ama! Icebergs são sempre estáticos e quando se desfazem devido a temperatura (tensões da vida) - deixam de Ser. Mas o poeta é um SER que se desfazendo se refaz. Olha o que o poema diz: "Eu sou chuva que pingo, pingo, pingo, pingo...". Tudo isso por que, como bem disse um outro poeta, "amar rima com derr-amar". O poeta acima só sabe viver se derr-amando e, nesse eterno se "desfazer", ele ascende uma oração: "Que o vento me leva à janela dela na minha queda derradeira.".

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