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sábado, 30 de abril de 2016

A história que nunca aconteceu é um fato histórico que não se pode negar

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De súbito, ela começou a contar sobre o dia em que foi a casa e lavou o quintal enquanto a filha e o marido dela dormiam. De passos leves, ela arrumou a desordem sem ninguém perceber a presença dela. Mas a bagunça era presente no quintal que ela lavou. O que realmente aconteceu? Será que ela estava mentindo para todos?  Ela disse que lavou o quintal com sabão em pó e, ainda, mencionou que tudo estava muito sujo e fora do lugar. Da boca dela podia ser ouvida a sentença: “O quintal da minha casinha, precisa ser limpo”. Todos perguntavam quando ela havia feito à limpeza, todavia ninguém a viu em tal tarefa. Ela dizia que fez tudo em silêncio. A história que nunca aconteceu é um fato histórico que não se pode negar, mas todos negavam que ela havia realizado a faxina no quintal da casa que ela chamava, carinhosamente de, “minha casinha”.

Que passos mais delicados os delas. Eles São imperceptíveis para quem mora no tal quintal. Se ela estava lá e ninguém a viu, onde estavam todos nesta hora? Ela afirmou que lavou o quintal e o deixou ‘tinindo’. Porém, tudo está envolto numa sujeira “inlimpável”. O quintal ainda estava emporcalhado e se a história que nunca aconteceu é um fato histórico que não se pode negar, o quintal sujo dizia o oposto. Ela afirmava, com voz cheia de certeza: “eu lavei o quintal e deixei tudo organizado”. Entretanto, todos notavam que ele ainda estava sujo e, também, ninguém a viu, como já dito, limpando o quintal vazio da presença dela. Era um mistério que intrigava a todos os vizinhos daquela senhora. O que será que aconteceu de fato?
Logo a verdade se fez presente, a história que nunca aconteceu é um fato histórico que não se pode negar, mas este fato aconteceu somente na cabeça da senhorinha cega e internada em um Hospital da cidade triste de tristeza mortal. Com sondas que a alimentam e aparelhos que vigiam a vida que lhes escapa, ela imaginou que foi escondida de todos lavar o quintal da casinha dela. Da mesma forma oculta, com sondas e aparelhos que trabalham para que a vida dela não morra, ela voltou para o Hospital, invisível a todos, e se deitou na cama, leito, para esperar a hora da visita. Ansiosa para contar que não precisa mais ficar internada, posto que, tinha força nas pernas e nos braços para lavar o quintal da casinha que tanto ela deseja. Qual o valor da história que nunca aconteceu na História linear, mas é uma história subjetiva na mente de alguém frente a curva final da existência?
Quem sabe o desejo de limpar, reflita o desejo de acabar com a sujeira que inunda os ambientes para onde desejamos voltar e, no caso da senhorinha no leito, a casinha parece ficar cada vez mais longe, morte! Morrer é ir embora de casa, mundo! O choro não suporta o peso da lágrima que, pesada, escorre destes olhos mergulhados na escuridão, cegueira. A pele desgastada mostra a distância que a vida dela andou, velhice!

Pois é, o fato histórico não cabe na História, ele aconteceu somente na cabeça da minha mãe que, internada e cheia de desejo de que a vida seja viva outra vez, acredita que é responsável pela faxina. Sim, existem faxinas que somente na última curva da vida fazem sentido. Alguns quintais são o sentido da vida. O sonho dela foi a expressão exata daquilo que vai além da vida diária, desejo de viver realmente. A história que nunca aconteceu é um fato histórico que não se pode negar, e isso não foi negado a ela e um lindo sorriso despontou na face enrugada que logo será parte da lembrança que me lembra de que ela é perecível.

E tudo que me dói por dentro, vira choro e as lágrimas são rápidas demais para que eu as alcance.
Nesta hora, eu fecho os olhos a vejo lavando o quintal. Ela olha em minha direção e, mesmo que nada seja dito, tudo se verbaliza na alegria que ela sente de ser uma “viva eterna”. Eu choro em profusão e ela me diz, com uma voz que só mãe sabe dizer: “fiê, eu estou bem!” minha mãe sabe mentir na hora em que a verdade é mortal. São assopros que fazem a dor, no corte da carne, parar. Eu indago, no sonho que sonho neste sonhar de ser eterno imanente, “não mãe, não está bem!” e ela retruca dizendo: “sim estou, estamos juntos neste momento que insiste em passar depressa.” Um cafuné, das mãos envelhecidas pelo tempo, na minha cabeça careca, diz que os carinhos são as marcas que ficam depois do passamento. Mãos antigas, que sabem traduzir a delicadeza que a vida esqueceu na brutalidade diária.
Há uma história que nunca aconteceu e que é um fato histórico que não se pode negar. O sonho dela e o meu: o nunca morrer. Deixar a eternidade morar no coração efêmero que logo deixará de fazer barulho.
Tum-tum-Tum, tu, t ...

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Uma voz chama o meu nome, parece a voz de quem fazia canções de ninar para eu dormir na escura noite interminável!


Anônimo.







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